Eis o sistema abusivo com nome e sobrenome!

Por Rodrigo da Silva

6h30. Segunda-feira. O relógio desperta. Você com aquela cara de sono. O barulho irritante do celular chacolhando os tímpanos. A cama quentinha pedindo hora extra. E a única coisa que passa na sua cabeça é: maldito capitalismo.
Explorado. É assim que você se sente. Um trabalhador brasileiro dedicado subcapitalizado. Funcionário semi-escravo de um sistema econômico abusivo.
o adianta disfarçar: ninguém é liberal às seis e meia da manhã.
Mas e se fosse possível trocar de papel e mudar de perspectiva? E se estivesse à disposição a possibilidade de abandonar a carteira assinada e finalmente assumir o posto de patrão? Você faz alguma ideia do que aconteceria caso decidisse montar o seu próprio negócio no Brasil?
Eu conto.
Seus problemas começarão logo em seu primeiro dia. Segundo o Banco Mundial, se nós considerarmos o tempo e a burocracia necessária para montar um negócio, o Brasil ocupa a posição de número 175 num ranking de 190 países. Nós lutamos contra o rebaixamento nesse campeonato. Na prática, seria mais fácil abrir uma empresa na Suazilândia, no Iraque e em Uganda do que por aqui. No mundo, em geral, essa média é de 21 dias. No Brasil é quase quatro vezes maior.
Conseguiu abrir seu negócio e agora precisa de um alvará de construção? Você definitivamente não escolheu o melhor lugar do mundo pra isso. Dos 190 países, nós somos apenas o 172º nesse quesito. Seria mais fácil obter o seu alvará na Faixa de Gaza – a 157ª da lista – do que aqui. Tome nota: pela frente, você precisará de 400 dias para obter sucesso nessa empreitada. A média no mundo é quase três vezes menor.
Sobreviveu ao calvário? Chegou a hora de entrar em operação e abrir o bolso de verdade. Segundo o Banco Mundial, nós estamos entre os dez piores lugares do mundo no quesito pagamento de impostos. Você gastará, em média, 2.038 horas por ano apenas para preparar, arquivar e pagar seus impostos – surreais doze vezes mais do que gastaria caso montasse seu negócio em qualquer país desenvolvido do planeta.
Achou que a luta seria travada apenas no relógio? Ledo engano. Sua alíquota de imposto total, segundo o Banco Mundial, será de inacreditáveis 68% do seu lucro.
Parece muito? Não termina por aí. Há ainda os processos. Muitos deles. Consequência natural de uma legislação que trata todo patrão como culpado até que se prove o contrário.
Na França, há em média 70 mil ações trabalhistas por ano. Nos Estados Unidos esse número é de 75 mil.
Faz ideia de quantas ações trabalhistas acontecem por ano no Brasil?
QUATRO MILHÕES.
Há seis vezes mais novas ações trabalhistas por dia útil no Brasil do que num ano inteiro no Japão. Na prática, se você decidir virar patrão no Brasil, possui de trinta a quarenta vezes mais chances de receber uma ação trabalhista do que se montasse o seu negócio em qualquer outro país com uma economia do tamanho da nossa.
Desanimador? Nem tudo são espinhos. Por fim, resta aquilo que realmente importa nessa história toda – a sua grana final nisso tudo.
Qual margem de lucro você espera receber no seu negócio? Trinta? Quarenta por cento?
Não trago boas notícias. A média por aqui é de pífios 2% do faturamento.
Sim, míseros dois por cento.
Jurou que iria ganhar um caminhão de dinheiro nessa? Apostou errado. Dos dez maiores rendimentos médios do país, seis pertencem ao funcionalismo público e um é uma concessão pública. Essa é a verdadeira elite intocável. Da lista, apenas três estão na iniciativa privada (médico, em quinto; piloto de aeronave, em nono; e desportista, em décimo, inflacionado pelas fortunas dos jogadores de futebol).
No topo do ranking? A profissão de titular de cartório. Onde começa e onde termina toda a burocracia do país. Na média, o rendimento anual dessa categoria fica em R$ 1,1 milhão.
Você? Não terá direitos. Não terá sindicatos lutando por seu nome. Não terá supersalários. Não terá estabilidade. Não terá descanso.
Dureza? Não se engane. Ao final de tudo isso, ainda será chamado de explorador por gente que jamais montou um mísero negócio na vida, encarando diariamente uma carga horária de trabalho superior a de seus funcionários. Com sorte, conseguirá sobreviver. Na média, segundo o IBGE, mais da metade das empresas brasileiras fecham as portas nos primeiros quatro anos de atividade.
Com determinação, você lutará contra tudo e contra todos. Todos os dias. O relógio continuará tocando da mesma forma às seis e meia da manhã. O futuro permanecerá dominado pela incerteza.
Ao final do dia, não será difícil notar. Você está tentando sobreviver ante o mais ardiloso dos combatentes. Não importa em que direção encare, a verdadeira máquina destruidora de prosperidade está posta em sua frente.
Eis o sistema abusivo com nome e sobrenome. E ele se chama Estado Brasileiro.

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