Mercado x Social: Um falso dilema

Existe calibração correta entre esquerda e direita? Quanto sentido sobrou para esses termos rígidos, nascidos no século XVIII, em um mundo complexo como o do século XXI? Quais os limites para uma discussão séria sobre política na atualidade? Coloque-se o limite muito estreito e você verá que muita gente boa fica de fora. Coloque-se o limite muito amplo e você verá que todo tipo de tribo pode se enquadrar, inclusive algumas cujas ideias, se concretizadas, deixariam o Brasil ainda mais atrasado do que é hoje (e estamos falando de gente com muitas "boas intenções", das quais o inferno está cheio).
Um bom teste de quais ideários deveriam necessariamente fazer parte da discussão é simplesmente ver o que já é consenso no mundo desenvolvido. Princípios que já estão pacificados em países diversos como EUA, Canadá, Austrália, Noruega, Finlândia, Inglaterra, Japão, Alemanha e afins são princípios que deveriam estar cristalizados em qualquer debate sério. Por exemplo, a ideia de que impostos devem ser simples e fáceis de apurar, ao contrário da atual selva tributária brasileira. Quem não apoia simplificação burocrática e tributária pode até fazer o discurso bonito anticorrupção, mas está apenas aprofundando o pântano onde a própria corrupção festeja. Burocracia e complexidade servem para a corrupção, assim como sombra e umidade servem para os fungos.
Outra ideia pacificada é que as contas públicas precisam estar equilibradas. Não se trata mais de discussão. Os efeitos do déficit prolongado sobre uma economia já são claramente documentados. Assim como no caso da lei da gravidade – ninguém acha que se jogar uma bola para o alto ela vai seguir subindo – o déficit prolongado gera consequências líquidas e certas: colapso nas finanças públicas, inflação, caos econômico e desemprego. Todo país sério, seja os de inclinação mais social quanto de mercado, colocam metas claras para o déficit. Não se cuida bem do social destruindo o valor da moeda do país ou gerando desemprego em massa.
 
Também está clara a ideia de que velhas castas e privilégios devem ser extintos, como por exemplo o escandaloso sistema previdenciário de dois níveis. Nosso país paga ao um milhão de aposentados da “nobreza” do funcionalismo o mesmo valor que paga aos 33 milhões de aposentados comuns, da iniciativa privada. Mesmo que em alguns casos tal diferenciação seja razoável, a situação que temos hoje no Brasil é inaceitável e insustentável.
Da mesma forma, há nas nações mais desenvolvidas um consenso em torno do estímulo ao livre comércio – ao contrário do que ocorre aqui, um dos países mais fechados do mundo. Nem mesmo os países europeus com maior inclinação social ainda mantém o velho protecionismo comercial. Reclamamos de uma taxa aqui, de uma alíquota ali, praticada pelos países ricos sobre nós, mas nos esquecemos que no agregado eles cobram em média um décimo das taxas brasileiras. E quem perde somos nós, forçando nossos cidadãos a comprar produtos piores e mais caros do que os desfrutados pelos habitantes de regiões livres.
Por fim, já é consenso a ideia de que o Estado deve prover excelentes serviços básicos, notadamente educação, saúde e segurança. Mas isso não será nunca atingido enquanto o grosso do dinheiro público fluir para a alimentação da máquina, do funcionalismo, das altas castas de servidores que não podem ser demitidos nunca. Nenhum país sério mantém a garantia de emprego do servidor público como existe no Brasil. Você não precisa ser um ardente cruzado em favor da meritocracia irrestrita (um conceito muitas vezes problemático) para aceitar que maus professores precisam perder o emprego, assim como maus policiais, maus médicos, etc.
A guerra entre mercado versus social já está enterrada no mundo civilizado e deveríamos também enterrá-la aqui. Todo país desenvolvido já entende que é preciso entregar bons serviços à população, de modo a ter cidadãos educados, saudáveis e produtivos. E, ao mesmo tempo, todos já entenderam que precisam respeitar as regras do jogo econômico para gerar prosperidade e impostos que paguem a conta dos serviços sociais. São vocações complementares, e não excludentes.
Alexandre, empresário e co-criador do Ranking dos Políticos

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